sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Desamor revisitado

'Ele chega com uma de suas jaquetas e de longe eu vejo aquele cabelinho de banda suja londrina que eu tanto amei, aquela carinha infantil de “olha, cheguei” que eu tanto amei, aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… e me pergunto: por que amei tanto e não amo mais?
Ele me aperta como sempre, até que algum ossinho da minha coluna estale, e me diz, como sempre também: “Que é que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”
Espreguiço para sugerir desinteresse meu coração bagunça tanto que tenho um ataque de tosse. Entramos de mãos dadas no cinema. Ele me olha sem parar, suspira, a cada movimento que eu faço, cada semblante, cada segundo de raciocínio. Faço um esforço pra tentar me lembrar: por que foi mesmo que eu deixei de amar esse homem? Não faço a menor idéia.
O filme é um lixo mas era o único que tinha e tudo bem. A gente brinca de adivinhar as próximas cenas, o filme todo ao som de “shius” que os humanos limitados fazem, inconformados com aquele casal que tenta boicotar um filme tão supimpa. Sobra pipoca no dente, colamos pipoca na testa. Cada vez que nossas mãos se encontram salgadas, dentro do saco, a gente brinca de se roçar com os dedos como pernas desesperadas.
Antes da gente chegar ao elevador do seu prédio, ele me oferece as costas e eu subo, o vizinho não entende nada, eu berro de longe: “Sou sobrinha dele.” Adoro essa brincadeira e mais uma vez me pergunto: onde eu estava com a cabeça pra deixar de amar esse homem?
Sinto pena dele sozinho naquele apartamento, quase quero ficar ali pra sempre. Ele mostra que tem todas as minhas músicas prediletas no seu iPod última versão. Meu Deus, agora faço o maior dos esforços do ano: por que cacete deixei de gostar desse cara?(..)'

Tati Bernardi

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